
Lucas R. Gaspar

Meu nome é Lucas R. Gaspar,
tenho 18 anos... o resto é desinteressante.

lençol amarelado
com a garganta cansada de
conduzir tanta bebida
me deito na cama
como o gado quando é abatido
cubro meu corpo com
o lençol amarelado de velhice
e desligo o abajur
(uma das poucas coisas) que
de minhas mãos
não escapa
por último cubro meu rosto
na esperança de que os sonhos
não sejam afugentados
nem se deixem levar
pela face da
derrota

escuta:
viver é foda
quando se está fodido
e sem foda nenhuma.
então:
como eu já me fodi,
vá se foder, pois que se foda.
e vê se não fode, abre logo essas pernas,
essa noite vou te foder
e você vai gostar.

muitas outras lâmpadas por
aí
a lâmpada
e a mosca em volta da lâmpada.
os carros correm
do lado de fora
regem a sinfonia
dos motores engasgados.
a fumaça provém do cigarro
enche a boca
desliza pela garganta
se infiltra nos pulmões
se hospeda na boca de novo
e se perde no teto
onde a lâmpada se pendura
e a mosca em volta da lâmpada.
alguém joga seus sapatos
em algum canto da sala
estica suas pernas
liga a televisão
se importa com as notícias do dia
quando já é de noite
boceja e coça a barriga.
a rolha pula
da garrafa de vinho
o copo se completa
logo se esvazia
e a mosca em volta da lâmpada.
ela achará outras
lâmpadas mais brilhantes
que as minhas
para se entorpecer
com luminosidade,
quando as do meu quarto
forem apagadas
e ninguém voltar a acendê-las.

vida de cão
o cão levanta
sua pata traseira
e urina no poste
de concreto,
todo manchado.
dá meia volta
e cheira seu mijo,
parece estar
satisfeito com
seu trabalho.
numa leve corrida
se dirige a
uma cadela
que late
insesantemente
na garagem
de um sobrado.
o vira-lata se
aproxima do portão
e começa a fungar
o cu da cachorra,
ela faz o mesmo.
as grades não
impedem que o cão
monte na fêmea,
e assim se inicia
a cópula canina.
depois da trepada
sente fome e vai
em busca de um
pouco de carne.
ele tem seus truques,
sabe que é só
abanar o rabo,
fazer aquele olhar
"tenha piedade de mim"
e fingir um choro.
logo está lambendo
seus beiços e
roendo um osso.
de barriga cheia
ele se deita ao sol
e cai num
sono pesado.
enquanto isso eu luto para usar talheres
e gravata, para deixar meu cabelo em bom
estado, para fazer minha barba dia sim
dia não, para não gostar do cheiro da minha
merda.

vivo por um momento
vagando bêbado pela rua
tenho vontade de me sentir vivo...
vou atrás de uma puta, é isso
vou atrás de uma puta
a minha frente
é só atravessar a rua
cumprimentar o segurança
abrir a porta e dar a passada.
tudo se iniciará naturalmente
luzes baixas, neon por toda parte
as dançarinas se roçando no poste
homens de todas as classes,
empresários, médicos, peóes de obra,
taxistas, jornaleiros,
frentistas, lojistas...
alguns já têm suas prediletas
outros se aventuram,
afogando suas mágoas
no líquido viscoso
purificador de almas
escolho a minha.
morena, cabelo liso,
pele bem clara,
rosto inocente, jovial
que daqui alguns minutos
se mostrará experiente
entramos no quarto
sujo, confesso
mas não reclamo
o que desejo está por vir
ressuscitarei, novamente
mesmo que seja por um curto prazo

Lucas
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