
Cynara Novaes

Sou costureira de palavras,
tecelã de frases arranjadas em versos, em poesias.

Abajur
Passarinho no fio
vendo o dia que morre
temendo o frio da noite,
esperando a hora redonda
em que a lua acende o seu abajur amarelo.
E o dia, por fim, morre.
A noite treme de frio,
cobre-se de estrelas,
na exata hora redonda
em que a lua acende o seu abajur amarelo.

Tecido
O tecido chamou-se cetim
O cetim, vestido
O vestido chamou-se
..............de festa, de
domingo
Missas e festas depois,
a moça viu-se fazendo no tecido
um bordado,
..............mais tarde, um
remendo
Chamou-se roupa de casa,
pano de fundo para o avental
Com o tempo,
chamou-se passado.
Bordado
O tecido,
a fazenda,
o pano.
O linho
e o desalinho da linha.
A costura,
a viagem da agulha.
A linha reta, ponte.
A linha em curva, monte...
E o tecido sem igual.
Esparadrapos e delicadezas
Nada tão complicado para o amanhã:
chinelo para ficar em casa,
café no copo,
panela velha no fogo,
flor aparecendo na janela.
E para o coração:
.............................esparadrapos
e delicadezas.
A porta
Eu tenho medo que deixes a porta aberta.
Tenho medo que eu entre e me perca na tua sala.
Eu tenho medo que deixes a porta aberta e que eu,
achando-a aberta, entre e me perca pela casa.
Eu tenho medo que deixes a porta aberta
e que eu, achando-a aberta entre
............................e
perca o caminho de casa.