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Concurso Literário

 

Antônio Hidalgo

 

Biografia: Antônio Hidalgo, mestre das artes de perder o tempo. À
procura, desandou a fazer poesias em nome da fé, da beleza e da
revolução. Perdera tudo enquanto menino. Identidade não há. Mas dizem
que é mexicano da região de Chiapas, vivente de nossas terras há mais
de 30 anos radicado num hermoso lugar de nome "Boa Esperança". Padre
de memória cinza, dizem também que pegou em armas no levante indígena
de 1952 na Bolívia.

I - La Conquista de Abya Ayala

Pra lá do poente avistam senhores de ventos e mar a fincar cruzes e espadas.

Olhos mareados procuravam às cegas o chamuscar das espadas mouras e
vislumbravam por trás de paredões inalcançáveis o grito efusivo do Rei
a cruzar a galope o pecado.
Os corações ainda pulsavam nas mãos quando do primeiro estrondo. Nem
os espelhos salvaram. Pularam os muros de pedra flamejante e caíram
numa escuridão molhada, tragados pelo ouro que carregavam. Triste
noite aquela que não se ouvia o vento; o murmúrio da guerra empapava
as botas encarniçadas pelo barro seco. O coração pulsava valente sob a
pele fina da terra. Tambores de guerra em anúncio profético...

O medo assolava a tropa até a chegada de cortês figura,
a cruzar a galope o pecado.

II - Boa Esperança

A chuva desliza em leito frouxo.
Toca a terra a beira das casas de taipa desses ermos onde terra quase não há.
Há beiras e cigarros mascados, pinguelas e cãezinhos chorosos debaixo
de pontes cambeiras.
Os sapos prolongam a rouquidão da noite,
E dia não há para os olhos acordarem febris como o sol.
As cores se exilaram, e a imensidão é cinza.
As hortas afogam em prantos. Haverá fome.

Quisera o rio se acometer da frouxidão dos leitos:
Esguio, apruma o corpo com brabeza.
Grosso de barro até as tampas, lambe beiras e canelas.
Desdenha as margens e a solidão do que passa.
Surdo com seu rumor de animal enredado,
Não espera o sol desvanecer-se de sua mortalha de frio.
Corre reto deslizando nas curvas crispado de chuva e esperança vã.

Vão será o mar de mil afagos e infinitos acalantos?

III - Indiferença

Debrucei-me sobre as pedras que jaziam impávidas aos pés do mar. As
ondas se exibiam majestosas aos casais de namorados que imóveis
aplaudiam com os olhos o espetáculo tagarela das águas profundas.
Relinchavam galopes de sal, musgo, e saudade.

Não me diziam nada.

Fiquei a olhar a robustez do pedregulho desafiador, o seu despir
imóvel do manto espumoso que insistente o encobria em vão, o seu
silêncio maior que os berros do infinito horizonte. Espertíssimo,
fingia de morto como o bicho cascudo agora em meu dedo fingindo ser
pedra, tijolo, granito. Por que essa ausência que fere os sensíveis e
frustra as paixões?

Debrucei-me sobre as pedras, pequenas cordilheiras de indiferença
mineral. Orelha sob o casco duro:

Não disse coisa alguma.

IV - A violência da poesia

A poesia é meu artifício para driblar o excesso de seriedade que
vestem à vida. É meu pulmão que expele os ares viciados de um peito
cansado de panos. É necessário olhar para lua e se espantar. É
necessário que os sabores do mundo violentem os nossos corpos. Os
instintos não deixam dúvidas sobre toda a intensidade que cobre o
mundo como o beijo afoito que abrasa línguas quase acostumadas somente
às palavras. Não há necessidade de rostos rígidos, de ternos escuros
no centro da cidade, não há necessidade nem de cidades e nem de
centros. Eu gosto das esquinas quando cai o dia. Quando a noite aponta
no céu suave e os tambores ressoam nas esquinas. Gosto do cheiro dos
temperos fortes dos corpos e comidas nas esquinas de gente bonita
tocando tambor. Sim, a poesia é arma que não despeja brutalidades, não
veste ternos nem se contrai... Se estende preguiçosa no apontar da
noite. Escuta o povo cantando e canta também se alongando, se
espreguiçando. Não há calor nem dobras, não há dinheiro pra contar no
fim do dia, não há cidade para pisar com os pés. Não há pés para
pisar. A poesia se desdobra em chuva, catavento, balão colorido,
fumaça de churrasquinho... sempre distante, a uma palmo do toque,
nunca tocada. A poesia nos faz forte, mas não é esta força que
cortejam os brutos. A poesia nos dá um nó na garganta... as palavras
tropeçam, os olhos marejam. Anunciemos a chegada da lua com os nossos
batuques, com as nossas esquinas indolentes, com nossa gente gostosa
que sabe cantar com peito aberto a mrachar sobre abismos. A poesia me
faz poeta quando choro a toa, quando vejo a lua e sei do instante. Sem
peso, sou pluma e choro. Sou poeta nas horas sem horas, onde tudo é
fumaça, indistinção e lágrima.

V-

Precaução das placas:
"Arroubos de Cólera
Das 13 às 14 horas".

Antônio Hidalgo.
luizim23@gmail.com
http://araucania-hidalgo.blogspot.com/

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