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Morpheus (2007)

 COMO FICAR RICO, TER AMOR DE SOBRA E SER FELIZ EM POUCAS PÁGINAS (2004)

  O Dia Certo (2003)

 
O Despertar (2003)

No Futuro(2003)

O Canto da Noite (2001)

A Subida (2001)



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O Canto da Noite (2001)

Ouvia a brisa gelada fazer sons estranhos nos becos, entre as casas antigas. Costumava chamar aquele som etéreo, poético de "O Canto da Noite" quando era mais novo. Quanto tempo ele morou ali? Não lembrava ao certo... Uns cinco, dez anos? Deitou-se e pôs as mãos atrás da cabeça. Lembrou do quanto gostava de subir naquele telhado bem tarde da noite, observar o céu, o silêncio cortado apenas pelos sons do vento, sentir o sereno frio na pele... Quando deu por si, já estava subindo as escadas. Lá em cima de novo, tanto tempo depois... E... O que tinha de errado? Já não era a mesma coisa...

Lembrou do que ele sempre pensava quando subia ali: "Tudo pode mudar, mas sempre haverá estrelas no céu." Mas ele nunca imaginou tanta mudança em sua vida. Que voltaria ali adulto, e não mais ouviria o canto de sua mãe ecoar pelas paredes agora descascadas da velha casa. Uma lágrima escorreu pela face, mas ele não teve ânimo pra secá-la. Deixou-a correr até a boca e sentiu seu gosto salgado. Jamais pensou que teria que vender aquela casa, outrora tão cheia de vida, agora tão vazia. Que saudades da época mágica da infância... Das brincadeiras de esconder com seu avô no quintal, da paz na sua casa na árvore, do beija-flor que vinha beber a água com açúcar que ele pendurava na goiabeira... Foi a melhor época de sua vida. Duvidou que algum dia fosse tão feliz de novo.

Viu um meteoro e lembrou dos versos que fazia, já adolescente. Falava sempre do céu... Adorava os ares noturnos. Muitos versos ele fez para conquistar sua esposa. Ela não ligava muito pra poemas, mas gostava. E sempre agradecia com um beijo. Um singelo sorriso cortou a tristeza. Mas por pouco tempo... Lembrou que os anos de convivência deles juntos não deram certo. Não conseguiam ter os filhos que ela sempre quis, mas isso não foi o pior. Os dois erraram, e o amor foi se transformando num veneno. Raiva, ciúmes, vingança... Maldito seja o tempo... Seria ele o culpado? Estavam enjoando um do outro? Os dois sabiam que estavam a um passo do divórcio. Ele lembrou da sua teoria das estrelas e pensou que ela estava incompleta: "Tudo pode mudar pra pior, mas sempre haverá estrelas no céu."

Aquela era uma noite sem lua. Ele adorava noites sem lua. As estrelas pareciam brilhar mais. Sentou-se no telhado. Dali ele via quase toda a rua... Todas as casas antigas, os jardins maltratados, os terreno baldios. Não era assim antigamente. Pelo menos o lugar sagrado onde se passa a infância devia ser proibido de mudar. Já não passava ninguém àquela hora. As ruas cheias de crianças jogando bola e soltando pipa agora estavam sem viva alma. Nem os velhinhos varrendo as folhas das calçadas e fazendo fogueiras, enfumaçando as casas vizinhas, apareciam àquela hora. Só alguns cães de rua ainda estavam acordados, vagando soberanos no silêncio quase total... E um gato miava distante, como o choro de um bebê faminto.

Então sentiu as telhas sob ele estalarem... Viu que estavam molhadas com o orvalho, e ele já não era mais tão leve quanto nos velhos tempos de vigílias noturnas. Sentiu o jato de adrenalina invadir suas veias. Mais estalos... Qualquer movimento agora e ele afundaria no telhado. O que fazer? Só faltava essa... Um morcego passou bem perto. Mas ele nem se moveu. Achou que se deitasse de novo o peso se espalharia melhor e ele poderia ir rolando até a escada por onde subiu. As telhas cederam e os planos dele foram interrompidos pelo tombo.

Na laje empoeirada, sentiu uma dor imensa na perna. Não dava pra ver o que era, então procurou com as mãos. Sentiu o calor do seu sangue e que tinha algo cravado, atravessado na sua coxa direita. Estava quase desmaiando... Mas se isso acontecesse, ia sangrar até a morte. Que final idiota! Gritou por socorro e lembrou que ia ser muito difícil alguém ouvir. A única casa mais próxima que não estava abandonada era a da dona Amélia, que já era mais surda do que uma porta quando ele era um menino! Mas ele continuou gritando. Era a única coisa que podia fazer mesmo... E, por mais que se esteja reclamando da vida, nessas horas todos nós tiramos forças de não sei onde para continuar... Nessas horas, a vida se torna o bem mais precioso imaginável. Todas as preocupações e problemas parecem menores.

O pânico começava a dominá-lo. A sensação era a mesma que ele tinha quando criança, no escuro do quarto, acordava apavorado após um pesadelo e via faces medonhas nas paredes. Sentia aquele suor gelado pelo corpo, mas, mesmo assim, se cobria com o lençol para se proteger. O coração batia tão forte que parecia estar no seu pescoço. E ele, sem agüentar mais, gritava pela ajuda paterna. Queria gritar de novo, mas seu corpo não respondia. Olhava através das telhas quebradas para a casa vizinha com esperança. Sentiu que ia desmaiar. Seus sentidos quase se apagavam e voltavam. Viu uma luz se acender na casa da velha surda e alguém pequeno aparecer na janela. Alucinação? Foi seu último pensamento.

Só acordou, todo enfaixado, sendo levado pra uma ambulância. Procurou por seu salvador e viu, na porta da casa da dona Amélia, uma moça bonita, abraçada com uma garotinha, acenando. Vai ver a velhinha tinha morrido ou se mudado... Se mudado... Se não fossem as mudanças das quais ele sempre reclamava, ninguém ouviria seus gritos. Que alívio... Sentiu vontade de rir e de sentir o abraço de sua esposa de novo. Com certeza, ela o visitaria no hospital. Talvez ainda houvesse uma chance para eles.

Fabio Rocha

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A Subida (2001)

Sérgio subia o morro ao entardecer. Sozinho. Carregava apenas uma mochila. A cada passo parecia tentar deixar seu passado lá pra baixo. Os problemas, as dores, os amores e o tédio iam ficando. O céu estava maravilhoso, entre o rosa e o roxo. Ventava meio frio. E ele gostava.

Que o leitor não pergunte por que ele resolvera subir ali... Estava de férias, nada de bom pra fazer, e ele sempre admirou aquele morro próximo de seu prédio. Passou horas de sua vida admirando aquela paisagem de longe, da janela. Algo faltava em sua vida. E algo o atraía no morro. Então, resolveu ir até lá.

Chegou no cume. Ajeitou seu saco de dormir e sentou-se nele. Riu ao notar que agora a vista era seu prédio e vários outros, formando uma camada acinzentada e irregular entre a área verde que cercava sua cidade. Havia poucas árvores no alto do morro e a visibilidade era ótima. Cansado pela subida, bebeu um pouco de água do cantil e deitou-se. Ficou admirando o céu, agora mais escuro. Sentiu certa paz... Tranqüilidade... Mas, como sempre, a falta de alguma coisa. Viu alguns meteoros e caiu no sono.

Acordou meio assustado. Não sabia quanto tempo tinha ficado dormindo. Mas tinha algo estranho com aquele lugar. Algo diferente, mas não sabia o que... Acendeu a lanterna e se levantou. A sensação continuava, mas nem ele nem o foco de luz achavam respostas. Ouviu um barulho no mato e foi verificar.

Notou que estava com medo. E que andar na escuridão absoluta no meio de um matagal era mais aterrorizante do que pensara. Ainda mais sozinho. Sentia medo do que a lanterna poderia iluminar a qualquer momento. Viu uma luz à esquerda e sentiu um arrepio. Apagou a sua lanterna e foi na direção da luz, devagar.

Que alívio sentiu ao ouvir uma voz feminina cantarolando... "É primaveeeera... Te amo..." Ligou a lanterna e foi se chegando, cantando também. A menina disfarçou o susto que tinha tomado e perguntou o que ele fazia ali.

"Tô acampando e você?"

"Eu também... Estranho. Acampo sempre perto daqui e nunca vi ninguém nesse morro. Hoje é a primeira vez que resolvo acampar aqui e me aparece um cantor..."

"É a primeira vez que venho. Eu via o morro do meu prédio e resolvi passar a noite aqui hoje. Sou meio louco, sabe? Não liga não."

"Que ótimo saber que estou sozinha com um louco aqui..."

Os dois riram e ele notou que ela era simplesmente linda... Sua face, com a luz da fogueira, parecia meio etérea. Às vezes até parecia meio radiante... Ele esfregava os olhos e tudo voltava ao normal. Se apresentaram e começaram a conversar. Incrível como tinham os mesmos gostos pra quase tudo que falavam. Mas que brilho era aquele em seus olhos?

Tudo parecia bom demais pra ser verdade. Após passar quase um ano se torturando nessas boates e só encontrando mulheres que nada lhe diziam, num morro, no meio do mato, achou aquela perfeição. Foram conversando mais de perto, ela reclamou do frio e ele a abraçou. Seus olhos, de perto eram de um verde ainda mais mágico, poético, absurdamente lindos. Ele se aproximou mais e os portais verdes se fecharam vagarosamente. O beijo era simplesmente...

Acordou. Será que ele tinha desmaiado? Olhou ao redor e estava no seu saco de dormir. Não conseguia acreditar que tudo aquilo tinha sido um sonho... Os olhos verdes... O nome: Ana... Tudo perfeito. Se sentiu tolo por se apaixonar por um sonho... Foi até o local onde ela tinha acampado e ele não existia, muito menos fogueira. Nada.

Desceu o morro pior do que quando tinha subido e voltou pra sua casa, lembrando todos os detalhes oníricos... Nunca teve um tão realista. Nunca achou ninguém tão perfeito... Tinha que ver logo que era sonho.

As aulas voltaram e não conseguia esquecer de Ana. Fez vários desenhos dela e espalhou pelo seu quarto. Contou a história pros seus amigos, que acharam uma loucura... Toda noite rezava pra sonhar com ela e não conseguia. Aliás, era muito raro lembrar de seus sonhos. Aquele foi mesmo especial... Seus pais estavam preocupados. Nem comer direito ele comia. Estava ficando maníaco com aquilo.

Um dia, no meio da aula de Literatura, lembrou que ela disse que acampava sempre perto daquele morro, certamente na floresta próxima. Mas ela era um sonho! E daí? Ele estava tão apaixonado que resolveu ir dormir na floresta aquela noite. Talvez lá, pelo menos sonhasse com ela de novo. "Há mais coisas entre o céu e a terra..."

E lá foi Sérgio, ao entardecer, na busca desesperada do que sabia nunca poder encontrar. A floresta parecia novamente ameaçadora, mas tinha resolvido dormir lá e entrou pelo meio do mato. Não muito, pra não se perder. Arrumou suas coisas, se deitou e tentou de novo pedir uma ajuda divina pra encontrar sua paixão. Riu ao notar que nunca tinha sido religioso até toda essa loucura. E ouviu uma voz. Alguém cantava distante: "É primaveeeeera... Te amo..." Levantou, sorridente, e, sem acreditar na coincidência absurda, entrou correndo pelo mato, guiado pelo som.

Viu uma barraca próxima e que a voz vinha de lá. Uma fogueira. Foi se aproximando. O cabelo era loiro e liso como o dela, mas estava de costas...

"Ana?"

Ela se virou.

"Quem é voc... Meu Deus... Sérgio? Eu sonhei com você!"

Era mesmo ela. Olhos verdes, corpo lindo, rosto perfeito... Ele se aproximou.

"Eu também, meu amor..."

E continuaram o beijo interrompido. Uma pequena luz oval, alaranjada e estranha passou por cima dos dois, zunindo baixinho. Saiu da fogueira e subiu aos céus, se perdendo entre as muitas estrelas. Não foi notada. Pelo menos por eles.

Fabio Rocha

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 O Dia Certo (2003)

Não era o seu dia.

Imprimira o relatório errado para a reunião mais importante do ano. Despedido. Sem rumo na vida, pegou o rumo de casa.

No caminho, um táxi passou a toda velocidade, determinado, numa poça d’água e encharcou seu terno. Nem se abalou. Continuou andando no mesmo ritmo, olhos voltados para a calçada como que procurando uma solução. Sem dinheiro para se manter, teria que voltar em muito breve para o Brasil...

Subiu automaticamente as escadas que levavam a seu apartamento no primeiro andar e entrou. Sua mulher estava na cozinha, debruçada sobre o fogão, com o encanador a comendo por trás.

Antônio viu toda a sua vida passar diante de seus olhos nos segundos em que os dois ficaram paralisados na ridícula posição, em silêncio, esperando sua reação. Ele, então, do mesmo jeito que entrou, saiu do apartamento, em seu terno molhado.

Subiu os doze andares do prédio pela escada (obviamente o elevador estava em manutenção) e ficou observando a bela paisagem da megalópole na solitária cobertura. Era uma tarde como outra qualquer na vida dos humanos que passavam lá embaixo, pequeninos. A vida era, comprovadamente, uma merda.

Subiu na beirada da cobertura, pronto para dar seu primeiro e último salto ornamental. Um som de avião aumentava continuamente. Ainda indeciso, observou melhor a paisagem, localizando a estátua da liberdade e seu antigo escritório no World Trade Center.

O som das turbinas do avião estava alto demais, e o mesmo passou poucos metros acima de sua cabeça. Estava baixo demais! Traçou uma pequena curva e, como se estivesse em câmera lenta, se espatifou contra uma das torres gêmeas. Exatamente naquela em que ele trabalhava, na altura de seu escritório.

Antônio chorou, pois não era o seu dia de morrer.

Fabio Rocha

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 O Despertar (2003)

Carlos acordou com o sol na cara. A dor de cabeça era tamanha que nem lembrava seu nome. Abriu os olhos e notou que estava na praia. Tinha dormido sobre uma garrafa de sidra. Que maneira de começar o ano...

Caminhou pela areia cheia de lixo, garrafas e camisinhas usadas, tentando chegar até seu carro. Queria ir pra casa, tomar um bom banho e tentar se recuperar daquele porre. Sua mãe devia estar desesperada com o seu sumiço. Mas então ficou em dúvida se tinha vindo mesmo de carro para Copacabana na noite anterior. Não conseguia lembrar nada.

Sentou-se no calçadão e só então notou que tudo estava muito quieto. Que horas seriam? Talvez fosse muito cedo. Não passava viva alma na rua, nem na praia... nenhum carro, nenhuma pessoa, nada. Começou a achar tudo muito estranho. Levantou-se e andou pela orla, procurando, cada vez mais desesperado, algum sinal de vida. Nada.

Meu Deus, o que poderia ser aquilo? A cada minuto que passava, mais nervoso ia ficando. Em sua mente vinham profecias de Nostradamus, textos sobre o apocalipse... E aquele silêncio longo... Interminável... Havia cadeiras caídas, carros largados no meio da rua, roupas pelo chão, lojas abertas... mas nenhum ser vivo!

Carlos começou a correr, desesperado, pelo calçadão de Copacabana deserto, tentando achar pessoas e respostas, mas não conseguiu. Depois de algum tempo, exausto, parou e voltou-se para o mar.

Foi quando viu na praia, perto da água, uma pessoa. Retomou o fôlego e foi correndo, gritando até ela. Era uma mulher. Que alívio não estar sozinho numa situação dessas... Ela olhava o mar, com uma expressão aborrecida. Segurava uma garrafa de sidra em uma das mãos e um rádio na outra.

Carlos perguntava desesperadamente o que tinha havido e ela olhava o mar, calada, com uma expressão grave. Por fim, acabou se voltando para ele e dizendo:

- Armas químicas! Elas falharam com nós dois não sei por quê.

Aumentou o volume do rádio. Em inglês, ouvia-se: “Agora a Amazônia é nossa.”

Fabio Rocha

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 No Futuro (2003)

Sempre gostou de contar dinheiro. Vivia cantando e contando. Adorava os extratos crescendo, os juros das contas remuneradas, os aniversários das cadernetas... O que podia, economizava para ver o montante crescer.

Nunca ia ao cinema, evitava comer fora, não aumentava a mesada dos filhos há 3 anos... Na última vez que fora ao supermercado com a esposa, acabou o casamento.

Desde então, solitário, seu estado foi se agravando. Começou a emagrecer pois comprava menos comida. Chegou a alugar o próprio apartamento e foi viver na rua.

Quando seu filho o encontrou, estava morando sob o viaduto do Méier, cercado de mendigos. Esse foi o limite. Interditaram judicialmente o pobre homem e gastaram todo o seu dinheiro.

No hospital psiquiátrico, ele passou o resto da vida guardando todo o tipo de quinquilharia.

- Temos que pensar no futuro..., dizia.

Morreu em dois anos.

Fabio Rocha

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 COMO FICAR RICO, TER AMOR DE SOBRA E SER FELIZ EM POUCAS PÁGINAS (2004)

O quarto está claro. Luz branca, como uma cozinha. É bom estar num lugar claro numa noite tão fria. A luz parece afastar qualquer ausência. O som da chuva batendo nas folhas lá fora convida à introspecção. Leve. Calmo. É hora de começar um romance.

***

Escolhi o caminho errado em algum ponto... Ou vários. Mas estava disposto a achar o certo, custasse o que custasse. Ana me falava o dia todo sobre coisas que não interessavam minimamente. Cor de cabelo, o filho do artista que não era dele, uma bolsa que ela queria comprar mas estava cara... E eu sabia que ela queria que eu dissesse “Não faz mal, compra.”, mas não dizia. Fingia não saber. Olhava o tempo todo a sopa de ervilhas, que comia lentamente. Silêncio. Agora eu sabia, mesmo sem olhar o rosto de Ana, que ela estava se emputecendo. Em breve viria alguma reação disfarçada por parte dela. E eu fingiria não notar também, para evitar piores brigas. Mais alguns minutos de silêncio. A sopa estava boa. Ainda quente. Coloquei um pouco mais de azeite. Ana é que bancava a sopa, o azeite, a casa, tudo, mas mesmo assim queria uma aprovação para comprar a maldita bolsa, que eu não dava. Tentava entender porque não dizia logo o que ela queria ouvir, mas não dizia. Saboreava o silêncio.

- Você que acabou com o sorvete de morango, Felipe?

- Ana, quem mais poderia ter sido?

- Felipe, aquele sorvete era para a Rosineide! Ela adora sorvete de morango!

Era assim que ela tentava diminuir-me, lembrando que sou um escritor fodido que não tem grana nem pra comprar sorvete de morango... E tenho que me sentar ali com meu amor morto e ouvir que o sorvete era para a empregada.

Não respondi. Minha vingança foi chupar a colher cheia de sopa ruidosamente. Ana foi pro quarto e se trancou. Ergui os olhos para a janela da cozinha. A lua devia estar sobre o mar em Copacabana, linda mesmo. Mas tudo o que eu via era a parede descascada do prédio vizinho, e ouvia os cães latindo na noite do subúrbio carioca.

***

Teria que trabalhar em algo que não gostava, pois o que gostava era ler, escrever e filosofar. Mas não conseguia sobreviver disso, nem aturar Ana, meu sustento.

Sim, eu sempre soube que o trabalho fora uma invenção católica, para cansar o corpo e livrá-lo dos “pecados da carne”, posteriormente reforçada pelo Protestantismo, com seus dogmas do tipo “mente vazia, morada do demônio”. Sem falar na praga lançada sobre Adão, quando expulso do Paraíso. Praga que agora parecia se abater sobre mim... Grandes portões se fechavam às minhas costas, enquanto a sopa esfriava a minha frente.

Sempre soube que a imensa maioria das pessoas trabalhava explorada por não ter outra opção de sobrevivência, e a minoria privilegiada o fazia para fugir de si, pelo status, pela necessidade consumista de comprar mais e mais... Raríssimas exceções viviam fazendo o que gostavam. Eu mesmo não consegui...

Sempre soube que as máquinas cada vez mais tiram emprego de trabalhadores com funções braçais. E, paradoxalmente, o nosso ensino (público e privado) cada vez mais prepara pior os futuros trabalhadores que, sem empregos braçais e despreparados para empregos mais “intelectuais”, aumentam as estatísticas de desemprego.

Eu sabia demais. Pra quê saber tanto, meu Deus? Houve um tempo em que pensei em ser professor para revolucionar esse sistema educacional de alguma forma extraordinária, ou pelo menos para dividir essa sabedoria com alguém. Mas não passei nem na prova para o Mestrado, com questões absurdas sobre termos herméticos. E, sem um título, não se pode fazer nada por aqui. Por mais que não se aprenda nada de útil numa graduação ou numa pós-graduação. Por mais que a grande atividade nesses locais seja a das máquinas de xerox.

Ah, leitor... Esse Felipe que sempre valorizava o ócio, a contemplação... Que criticava o uso atual da expressão utilizada nos campos de concentração nazista “O trabalho liberta”... Queria se libertar. E teria que se libertar pelo trabalho nazista, pelo trabalho alienado, pelo trabalho sem paixão, pelo trabalho em troca apenas de um maldito salário.

***

Ana, em seu quarto, organizava os armários, lotados de roupas em excesso. Após isso passaria uns dez cremes e tomaria uns quinze remédios para evitar a velhice inevitável.

Rosineide chorava com sua novelinha, e dormia, exausta, com a TV ligada.

Eu pensava sobre os males do mundo, filosofava longamente olhando e janela, deixava os pensamentos fluírem, se misturarem... No entanto, sempre voltavam a Rosineide. Raiva. Era raiva. Como a que senti no dia em que ela interrompeu minha meditação transcendental com risadas. Devia achar a posição de yoga ridícula, ou eu ridículo na tal posição. E agora, eu teria que guardar sorvete para aquela imbecil.

Aliás, ela vivia rindo. Com motivo ou sem. Onde achava felicidade, meu Deus? Uma anta sem visão de mundo, que não sabia anotar um recado quando atendia o telefone. Uma mula de carga que passava mais de oito horas por dia limpando, cozinhando, passando roupa, fazendo tudo para os outros. Que se tivesse meio neurônio já tinha se matado ou entrado para o tráfico de drogas. Que não tinha casa, que não tinha um amante, um amor, nada. De onde saíam aquelas infindáveis risadas de hiena?

Percebi que minhas mãos estavam espremendo as bordas da mesa, como que buscando o pescoço gordo de Rosineide. A imagem da desgraçada morrendo em minhas mãos me deu prazer. Poder.

E ainda tinha um radinho. Um maldito radinho de som péssimo, que eu era obrigado a ouvir quando ela limpava a casa. Quantos walkmans já dei para esta criatura? Perdi a conta. Ela não usava. Agradecia, guardava ou vendia, mas não usava. E a casa não sendo minha, o salário dela não sendo pago por mim, como exigir qualquer coisa?

Fui dormir no sofá, com uma pressão no peito. Morna. Não dormiria nem tão cedo.

***

Pela manhã, saí pela cidade. Desci a ladeira da maldita rua de Ana e vi a vizinha manca subindo. Senti tanta pena dela subindo sozinha que não a cumprimentei. Seu marido, Parmênides, tinha morrido. A vida é assim mesmo, cruel. Por onde andaria agora o companheiro da vizinha, seu apoio nas ladeiras da vida? O cara vivia na janela do primeiro andar do prédio vizinho, fumando e escarrando ostras no quintal da casa da Ana. E, sempre que estava ali, naqueles poéticos instantes, procurava desesperadamente alguém para puxar assunto. Eu saía meio abaixado, fingindo uma concentração que não tinha, se pudesse, saía de casa invisível quando ouvia sua tosse ou sentia sua presença ali na janela. Era um pigarro que queria dizer “Estou aqui, fale comigo!”. Eu fingia não ouvir. Mesmo assim, muitas vezes ele começava a falar. Falava do tempo, ou temas semelhantes e metade eu não entendia. Era meio grulha nosso vizinho falecido. Eu não compreendia e concordava e dizia ter pressa e saía. De quando em vez ele trazia uns aipins que tinha colhido num sítio, não lembro onde. Ana agradecia, Rosineide cozinhava e eu, Felipe, comia.

Não sei mesmo o nome da vizinha manca que sobe a ladeira com dificuldade, viúva, nesse frio ferrado que está fazendo ultimamente.

***

A cidade do Rio de Janeiro acordava. As padarias abertas, com trabalhadores se preparando para mais um dia, tomando café com leite em copos de vidro. Um borracheiro espantando pombos batendo com uma chave inglesa numa placa de proibido estacionar. Um vizinho do borracheiro reclamando pelo barulho, que havia lhe acordado. Ainda estava frio. Frio não combina com esta cidade maravilhosa que é o Rio de Janeiro, mas estava bem frio.

Caminhei pelas ruas sem destino certo, mas não consegui escapar da minha dúvida: será que terei que me juntar aos das padarias? Ou será que meu romance – este romance – me salvará? Pensava num título para ele... Num título que atraia o leitor. Tem que ser forte e universal. Talvez algo como “COMO FICAR RICO, TER AMOR DE SOBRA E SER FELIZ EM POUCAS PÁGINAS”. Foi quando encontrei com tio Sávio. Quase nos esbarramos. Ele seguia curvado, ombros preocupados, pasta cheia de obrigações sem sentido.

- Opa. Felipe? Saiu um concurso público pra prefeitura de Nova Iguaçu, você viu?

Este era o “tudo bem?” do tio Sávio. Ele era fiscal, odiava seu emprego e cismou que eu devia ser funcionário público, que teria mais garantias... Eu era bem preparado, tinha uma faculdade e passaria fácil em algum, insistia. Mesmo sabendo que eu já tentara vários e não conseguira. Depois disso ele sempre dava uma reclamada da vida e, por algum motivo estranho, eu sempre acabava falando demais da minha própria vida pra ele. Ele dava uns conselhos óbvios que me irritavam, mas eu sempre falava demais, reclamava demais, me colocando numa situação de alguém que parece querer ouvir conselhos. Quão complexas as relações humanas... Tio Sávio começou a aconselhar e ouvi. Senti um desconforto por ter que ouvir aquilo e desconversei, inventei um compromisso e ele foi encarar o seu metrô superlotado diário. Eu até que gostei de falar com ele. Sempre gostava, no fundo. Não sei, racionalmente, o porquê.

Dei outra olhada pra padaria, onde já havia um cara bêbado àquela hora da manhã, tropeçando e xingando alguém imaginário, com plenitude de gestos. Possivelmente falava para o vazio tudo que não podia falar para seu chefe, aquele capitalista que lhe explorava. A imagem de Ana me pareceu menos sombria, sua casa mais agradável e sua empregada apenas uma pobre companheira que não se alimentou bem na infância, que estudou mal nesse ensino miserável e não teve oportunidades melhores para evoluir como espírito de Deus. Coitada.

Fabio Rocha

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 MORPHEUS (7/7/2007)

Despertou quase lembrando de um sonho estranho. Algo a ver com um livro numa livraria, com capa bege, que amigos haviam recomendado e que parecia realmente bom pela contra-capa. Justamente essa história contada na contra-capa é que ele não conseguia lembrar agora desperto. Parecia tão boa e simples. Queria fazer dela seu romance. Baseado em sonhos reais. Mas não lembrava. De qualquer forma, foi escrever:

A cidade era bege. O tempo era incerto. As janelas fechadas escondiam o clima. Acordou. Não precisava de despertador. O primeiro pensamento foi o de organizar seu dia. Fez planos detalhados, levando em conta as três refeições e o dinheiro que carregaria com ele, já pensando nas probabilidades de assalto nas áreas que percorreria e os horários mais vazios para pegar o metrô. Parou de escovar os dentes e percebeu não haver água. Cuspiu e teve que suportar aquele gosto de pasta de dente persistente na boca. E ver aquele cuspe branco pegajoso vencendo a gravidade e o brilho de sua pia tão limpa. Não suportou. Com papel higiênico, limpou a pia. Até brilhar novamente. Foi se vestir, sem ter que escolher sua roupa, pois, para isso mesmo, ele só tinha o mesmo modelo e cor de camisas e calças: para não perder tempo escolhendo. Ao tentar abrir o armário, a maçaneta fica na sua mão. Não abre. Seu coração dispara. Sente uma presença maligna no quarto, ao notar tanta coisa saindo de seu controle. Calor. Destrava uma janela. Não abre. Suor. A porta. As quatro trancas da porta. Pingos no chão limpo. Destranca todas as trancas. Vira a maçaneta. Mas a porta, magicamente, não abre. Fica como que presa pelo lado de fora. Estaria a casa soterrada? A caixa de ferramentas. Treme. Derruba a metodicamente arrumada caixa de ferramentas em cima da cama. Chave de fenda. "Dá-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo." Alavanca na porta. Escapole. Dedo cortado. Dor. Medo. Sangue. Não abre. Força. Chão mais sujo ainda. Vontade. Reza ao Deus de sua avó. Calor. Insistência. Abre. Um passo pra fora, de cueca. Respiração tentando se acalmar. Luz estranha, bege. Sombra estranha em torno. Olho pra cima. Um piano me mata.

Fabio Rocha

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